Amortecida
Um desabafo sobre sonhos, medo e o que ainda pode acontecer
Amortecida talvez seja a palavra dominante, como imagino que ocorre quando uma pessoa é mordida por um tubarão e o corpo desliga os disjuntores pra que você continue viva.
Eu não sei se a quem chega esse texto sabe o que é ser fã, mas para fãs não viver algumas experiências é tão dolorido quanto um ataque de tubarão, não falo pela FOMO em si, e sim de sonhos.
Incontáveis vezes assisti os shows do BTS, talvez de fato elaborando o luto.. cheguei a viver alguns que ocorreram no cinema. Não sou das que coleciona itens, mas se tiver uma pasta imaginária de experiências vou estar querendo.
Quando o kpop surgiu pra mim era no início da pandemia, então vivi com intensidade dentro das limitações do momento, pesquisei, vi traduções, referências, mergulhei, não do pescoço pra baixo: de cabeça.
Com o tempo fui conhecendo outros grupos, mas se eu te disser que me imaginei num show, meu eu do passado diria que é um delírio. Fui em poucos na vida pré kpop, e mais para estar com as pessoas do que por mim mesma. Não entendia que na verdade não era o evento que era chato, e sim que não era o que eu gostava.
Quando fui no meu primeiro lembro da sensação de não estar acreditando que eles estavam apenas nos meus ouvidos antes, e naquele momento meus olhos os viam. The Rose foi um marco de abertura e talvez semi fechamento, nesse meio tempo também descobri que adoro viajar e conhecer lugares novos.
Algo que fiz quando não consegui ir no show do Mark Tuan, dei check na região sudeste do mapa, e foi tão bom poder viver aquilo. Viajar me faz sentir que estou viva, que posso inventar um nome, e que nada na minha vida vai ser relevante numa conversa, sequer minha profissão, só aquele momento, o agora.
Eu não sei o que quero com essas palavras, mas sinto que estou embotada temporariamente, como quem vai num sorteio e abre mão por saber que a sorte não é bem sua companheira, como todas as vezes que fugi de competições ou que não tratei pessoas no mesmo processo seletivo enquanto rivais.
Talvez eu seja covarde ou tenha sido ensinada que dificilmente irei vencer, o que me faz não testar algumas coisas, por temer investir uma energia muito grande naquilo e ter que lidar com a frustração da porta na minha cara.
Sim, estou consciente de que eu mesma tenho fechado portas, nesse momento realmente não seria o melhor tentar comprar ingressos estando numa realidade que é temporária e gostaria de sair o quanto antes.
A adultez também nos trás certa prudência, se eu fosse num parque de diversões provavelmente evitaria os brinquedos mais hards, que eram os meus preferidos na juventude.
Hoje fiquei pensando: quando eu morrer vou me arrepender de não ter tentado mais essa proeza? E aí pensei de novo: a gente não sabe quando vai, talvez eu me arrependa de não ter feito uma amizade sincera com um agiota e partido num mochilão. É isso, que eu ainda o viva.
Enquanto há tempo há possibilidades.


